Porque Vestir os Clássicos


Como nessa edição #2 da newsletter estreamos a sessão Clássicos e Releituras, mergulhamos em uma questão básica: Por que vesti-los? Parece óbvio, em um primeiro momento. Afinal, quem não possui em seu armário ao menos algumas dessas peças de um vestir atemporal, um vestir universal? Tão óbvia que tantas vezes passamos batido de seu valor. Nos acostumamos. Nos apegamos a novidades mil. Queremos o diferente, mas nos esquecemos que nessa base sólida dos clássicos habita uma beleza, afeto e multi / utilidades que nos preenchem de praticidade, propósito, histórias, essências.



Clássicos, à princípio, vem do latim classis - convocatória. Ou seja, algo que chama, que traz à tona, que puxa. Alguns estudiosos afirmam que se remete ao exército de Roma, enquanto outros abordam a visão de que essa etimologia, muito destinada a autores, professores, escritores, se refere à criação de algo de muita expressividade, e que portanto não tem data de vencimento e se torna um referencial ao longo das eras. Algo que atinge um molde, uma expressão tão especial que vai além do tempo, o vence. Algo que sempre será útil para alguém que se propõe a ele. Algo que sempre terá algo a oferecer, a entregar. Algo que se eterniza por sua proximidade de um modelo atemporal.


Uma peça clássica não necessariamente se refere a algo antigo. Pode-se criar um clássico ontem, agora. Algo tão próximo a um modelo atemporal que surpreende, tão próximo a uma necessidade humana que permanece e, como destacado acima, se torna referência.


Se você fosse para uma ilha deserta e tivesse que montar uma mala única, o que valeria a pena levar, já que não dá para carregar muito volume? Com certeza bons clássicos, pois eles sempre têm algo a nos entregar em beleza, afeto e multi / utilidades. Sempre têm algo a nos suprir, nos proporcionar. Para usar quantas vezes forem necessárias, trazendo uma soma de vantagens que dificilmente outras peças trariam.


Quanto mais dentro, mais fora. Quanto mais aprofundamos em nós mesmos, mais percebemos o valor e os detalhes / o valor dos detalhes / que uma peça clássica nos proporciona. Algo que frutifica em nossas próximas escolhas, pois uma vez compreendido esse valor não acolhemos mais o excesso, e/ou peças muito pobres de sentido para nós. E com isso aprendemos a vivenciar um essencial equilíbrio, consciência de uso, de consumo. Portanto, uma base fortalecida de peças clássicas no armário é fundamental até para que possamos exercer discernimento diante de tanta informação, tantas novidades. Em qualquer idade, aproveite, re / use os clássicos. De qualquer tempo. Feitos antes ou agora. Clássico é o que sobreviveu à ignorância humana, sempre direcionada ao desejo constante / pelo novo.


Os clássicos chegam a nós trazendo seus rastros, os traços que deixaram na história, nas culturas. Não é simplesmente aquele material que temos em mãos, já que trazem consigo anos de influências, de acontecimentos marcantes, de formatações das nossas maneiras de pensar, de vestir, de conviver / com nós mesmos e o outro. Trazem consigo toda a bagagem daqueles que as vestiram antes e que foram formando a cultura que temos hoje. Portanto ao vestir um clássico não recebemos apenas a peça original como também sua origem, seu conteúdo enraizado. Nos sintonizamos a essa peça por seus benefícios imediatos e fortalecemos essa conexão com toda a história formatada por esse clássico. Algo que, ao passarmos a re / conhecer, passamos também a nutrir uma nova, e aprimorada, relação com o vestir.


Pelo hábito da facilidade de acesso a tantas novidades, muitas vezes perdemos mão da essência das coisas. Um clássico pode nos trazer não apenas descobertas como também redescobertas. Posturas, olhares que tínhamos diante do vestir e que o tempo, a correria, nos alienaram. A perda de um sentido mais claro sobre um gesto tão cotidiano. Ou ainda nos reencontramos nessa essência humana tão cuidadosa, duradoura, baseada em criações únicas de nossas essências pessoais e que seguimos somando no dia a dia, em todas as áreas. Compreender e incorporar os clássicos traz à tona o que somos e esquecemos. O que somos e expressamos ao mundo através de nossas escolhas / do vestir.


Uma peça clássica, aproveitada com afeto, tem grandes chances de se tornar nossas peças favoritas. Peças que trazem toda a força de compreensão das necessidades humanas de sua criadora / seu criador. Fazem a diferença. Criações das quais não abrimos mão. Criações que nos possibilitam uma amadurecida relação com questões fundamentais do vestir, questões fundamentais acerca do que é realmente essencial.


As peças clássicas resistem. Continuam entre nós mesmo em um mercado recordista de lançamentos, descartes, descasos. Re / use.




Inspirado na palestra da professora Lúcia Helena Galvão sobre o livro "Por que ler os clássicos", de Italo Calvino

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